No centro da geopolítica de terras raras, Araxá vira peça-chave no tabuleiro global
- Segunda-Feira, 17 Mai
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Amostras de terras raras: Óxido de cério, Bastnasita, óxido de neodímio e carbonato de lantânioREUTERS/David BeckerAraxá está a milhares de quilômetros dos corredores diplomáticos de Pequim (China), Washington (Estados Unidos) e a cerca de 600 quilômetros da Praça dos Três Poderes em Brasília. Mas o que existe embaixo da terra do município mineiro conecta a cidade diretamente às decisões estratégicas das maiores potências do mundo. Em meio à corrida global por minerais essenciais à transição energética, à indústria de defesa e à tecnologia de ponta, Araxá concentra uma das maiores riquezas minerais do planeta: cerca de 80% da produção mundial de nióbio e detém a única reserva oficialmente reconhecida de terras raras do Brasil, atualmente no centro da disputa geopolítica entre China e Estados Unidos.✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Triângulo no WhatsAppNão à toa, o tema tem ocupado espaço nas agendas internacionais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tratou diretamente de terras raras e minerais críticos em encontros recentes com os presidentes da China, Xi Jinping, e Donald Trump, dos Estados Unidos, defendendo soberania nacional e agregação de valor à produção brasileira.ASSISTA no fim da reportagem a série especial do MG1 "ARAXÁ RIQUEZA DA TERRA"Vídeos em alta no g1🧲 Araxá, capital mundial do nióbioAraxá abriga no subsolo uma das maiores jazidas minerais do mundo. A cidade é responsável por quase todo o nióbio produzido no planeta, metal estratégico utilizado:🦾 no aço;🚗 na indústria automotiva;🏗️ na construção civil🚀 no setor aeroespacial;🔋 e, mais recentemente, em baterias de carregamento ultrarrápido.Segundo dados do Serviço Geológico Americano, o Brasil se destaca como o principal produtor de nióbio do mundo, contribuindo com quase 90% da produção global e detendo 95% das reservas conhecidas, distribuídas nos estados de Minas Gerais, Amazonas, Goiás, Rondônia e Paraíba.Em 2019, Araxá já tinha a maior reserva de nióbio em operação do planeta e cerca de 80% de todo o nióbio vendido no mundo já era extraído da cidade e controlado pela Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM).Conforme o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), o nióbio foi o quarto componente da balança de exportação mineral brasileira. Desse total, Araxá respondeu por quase R$ 2 bilhões em exportações do mineral para diversos países. Segundo especialistas, o diferencial de Araxá não é apenas a existência da reserva, mas o modelo de exploração, que agrega valor ao minério antes da exportação, transformando a cidade em referência para o setor mineral brasileiro."Araxá é uma mineração em que ela explora minério de nióbio e ela desenvolve boa parte da cadeia do nióbio. Ela tem a siderurgia, que produz nióbio a 60%, a 70%, a 80%, 95%. Ela agrega valor no seu bem mineral. Ela não vende matéria bruta pra fora. Araxá e Minas Gerais mais uma vez trazendo um bom exemplo para ser aplicado ao setor mineral", explicou Francisco Valdir Silveira, diretor de geologia e recursos minerais do Serviço Geológico do Brasil (SGB).NióbioInfografia: Juliane Souza/G1🌱 Terras raras: o novo ativo estratégico que coloca Araxá no radar do mundoAlém do nióbio, Araxá está no centro das discussões sobre terras raras, um grupo de 17 elementos essenciais para a fabricação de motores elétricos, turbinas eólicas, celulares, equipamentos médicos e tecnologia militar. O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China. Conforme dados do Serviço Geológico do Brasil (SGB), Araxá tem a única reserva oficial de terras raras reconhecida no Brasil, incorporando também depósitos de nióbio de altíssimo valor estratégico. Essa combinação amplia o interesse internacional pela região.Entre 2020 e 2024, mais de R$ 7 milhões foram investidos em pesquisas sobre terras raras na região mineira do Alto Paranaíba, com Araxá concentrando 93,5% desses recursos, segundo dados da Agência Nacional de Mineração (ANM). Os investimentos reforçam a importância do município como uma província geológica estratégica."É um complexo geológico muito importante. Tem a questão do nióbio, tem o fosfato, tem a questão do titânio e o mineral Anatásio. É uma região que tem um potencial enorme e muito importante para o país", disse João Antônio Vasconcelos, coordenador de economia mineral da ANM.Projetos como o da mineradora australiana St. George Mining colocam Araxá no mesmo patamar de minas em operação nos Estados Unidos e na Austrália, únicas grandes produtoras fora da China — hoje responsável pela maior parte do refino mundial."As terras raras de Araxá se comparam a duas minas que estão em operação de forma bastante contínua no mundo, que é uma mina nos Estados Unidos, na Califórnia, e uma mina na Austrália. Essas são as duas minas fora da China que fabricam [processam] as terras raras e que produzem para o mundo. Araxá se equivale a essas minas e, por isso, tem tudo para ser a nova produtora de terras raras para o mundo", afirmou Thiago Amaral, diretor de desenvolvimento da St George.No início de 2026, a St George Mining anunciou novos resultados dos estudos de perfuração em Araxá, que indicam teores de até 28% de terras raras e 6,5% de nióbio. Segundo a companhia, essa combinação cria condições logísticas e operacionais altamente favoráveis, com patamares considerados excepcionais para projetos em desenvolvimento. Os novos dados de sondagem ampliam ainda mais o protagonismo de Araxá em relação a terras raras e nióbio.“Confirmamos o potencial do ativo como um dos mais relevantes projetos de terras raras e nióbio em desenvolvimento no mundo”, afirmou o presidente executivo, John Prineas.Um dos destaques recentes da St George é um furo com 178,7 metros mineralizados, o maior já registrado na área. Outros furos confirmam a continuidade da mineralização em diferentes pontos do projeto, reforçando a consistência geológica.💼 Uma riqueza que transforma a cidadeA mineração é, hoje, o principal motor econômico de Araxá. O setor responde por cerca de 90% da arrecadação municipal, impulsiona a geração de empregos qualificados e movimenta setores como hotelaria, mercado imobiliário, comércio e serviços.Somente a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) - royalty da mineração -, paga principalmente pela exploração do nióbio, já garantiu ao município e ao estado valores que colocam Minas Gerais como líder nacional na arrecadação desse tributo, com praticamente tudo vindo de Araxá. Em 2025, esse montante chegou a mais de R$ 14 milhões, o que fez com que Araxá, sozinha, respondesse por 41% de toda a CFEM recolhida no país.O setor mineral tem impacto significativo na geração de empregos e atrai investimentos de grande porte para a cidade. A CBMM, por exemplo, emprega mais de 2 mil pessoas diretamente e outras 3 mil de forma indireta em Araxá. Recentemente, a empresa também anunciou investimentos superiores a R$ 400 milhões na ampliação de sua planta industrial, com expectativa de criação de novos postos de trabalho.A St George, somente nessa fase inicial de sondagem e pesquisa, já gerou cerca de 100 empregos diretos e tem previsão de outros 400 postos de trabalho. Os investimentos da mineradora australiana em Araxá devem chegar a R$ 2 bilhões.A cadeia mineral também atrai investimentos em educação técnica, pesquisa, inovação e sustentabilidade, criando um ambiente propício para que o município se consolide como polo de tecnologia mineral e metalurgia.Fosfato, nióbio e terras raras formam um patrimônio mineral que coloca Araxá em posição de destaque no cenário mundial e impulsiona investimentos na cidade, com reflexos diretos no desenvolvimento econômico e social do município."Impulsiona não só a renda, mas o desenvolvimento tecnológico. Nós temos a principal mineradora do mundo no segmento de nióbio, instalada aqui, uma das maiores reservas minerais de nióbio do mundo. E agora estão vindo as terras raras, que aqui também tem uma reserva mineral muito significativa. Isso é revertido em saúde, sistema de segurança, educação, muitos empregos. Empregos qualificados, com boa renda", explicou Ítalo Borges, secretário de Desenvolvimento Econômico de Araxá. Para cada 1 tonelada de minério extraída em Araxá, é produzido 15 kg de ferronióbio. São necessárias várias etapas para se chegar aos produtos finais, incluindo concentração, refino e metalurgia.Fabio Tito/G1🔭 Ativo geopolítico começou a se formar há milhões de anosCom reservas consolidadas de nióbio, fosfato e terras raras, Araxá deixa de ser apenas um símbolo do turismo histórico mineiro para ocupar uma posição estratégica no debate global sobre segurança energética, transição verde e soberania mineral.Em um mundo cada vez mais dependente desses elementos, o que está sob o solo araxaense não é apenas riqueza — é poder, influência e futuro.Tudo começou ainda no século 20, quando ocorreu a primeira descoberta de minerais essenciais em Araxá, logo após a Segunda Guerra Mundial. Mas, a exploração do fosfato só começou no início da década de 70. Já o nióbio veio pouco tempo depois."A jazida de Araxá foi formada no antigo vulcanismo. Então, era um vulcão de mais ou menos 100 milhões de anos. Por erosão, foi acumulando nióbio e transformou Araxá numa reserva das mais importantes do mundo de minério. Aqui em Araxá transformaram a nossa reserva numa reserva de classe mundial", explicou o diretor da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), Alexandre Reple.LEIA TAMBÉM:Terras raras: o que são, onde estão e por que os EUA se importam com elasTerras raras (que não são terras e nem raras) colocam Brasil no meio de 'guerra fria' entre EUA e China; veja 10 perguntas e respostasASSISTA à série especial do MG1 "ARAXÁ RIQUEZA DA TERRA"Reportagem 1'Araxá: a riqueza da terra' estreia série especial no MG1Reportagem 2Série mostra como a mineração impulsiona a economia de AraxáReportagem 3Série mostra desafios para exploração sustentável de terras raras em Minas GeraisVÍDEOS: veja tudo sobre o Triângulo, Alto Paranaíba e Noroeste de Minas







